O sussurro do tempo nas ruas de Aracaju: um convite para olhar as nossas fachadas

Caminhar pelo centro antigo da nossa capital é como folhear um livro de memórias com as páginas abertas ao vento. Na pressa dos dias modernos, muitas vezes esquecemos de erguer os olhos e contemplar a riqueza que nos cerca. Neste texto, convido você a desacelerar o passo, observar as belezas silenciosas da nossa arquitetura sergipana e refletir sobre como os espaços em que vivemos guardam a alma da nossa própria história.

Existe um hábito muito peculiar que a maturidade nos traz e que eu, confesso, abracei com todo o carinho. É o hábito de caminhar sem ter a urgência de chegar. Quando ando pelas ruas do centro de Aracaju, especialmente nas manhãs de sábado quando o sol ainda não castiga os ombros, sinto que a cidade inteira tenta conversar comigo. A arquitetura tem essa mania bonita de falar em silêncio. Ela não grita. Ela apenas espera que você tenha a delicadeza de parar e escutar.

Aracaju nasceu de um tabuleiro de xadrez, pensada por Sebastião Basílio Pirro para ser organizada, lógica e virada para o encontro das águas do Rio Sergipe com o mar. Mas a vida, com toda a sua maravilhosa teimosia, tratou de preencher essas linhas retas com curvas, cores e texturas que refletem exatamente quem somos nós, os sergipanos. Nós somos uma mistura de rigor e poesia. E basta levantar um pouco a cabeça enquanto se caminha pela Avenida Barão de Maruim ou pelas ruelas próximas ao Mercado Municipal para perceber isso estampado nas paredes.

Hoje em dia andamos muito de cabeça baixa, com os olhos grudados nas telas luminosas dos celulares. A modernidade tem suas maravilhas, claro. Eu mesma adoro a liberdade de poder projetar uma casa inteira sentada na varanda do meu ateliê através do computador. Mas essa mesma modernidade nos rouba a chance de ver os detalhes de uma platibanda perfeitamente esculpida por um mestre de obras do século passado. As platibandas, aquelas muretas no topo das casas que escondem os telhados, são como coroas. Cada casarão antigo da nossa cidade carrega a sua própria coroa, algumas adornadas com arabescos, outras com pequenas estátuas ou datas gravadas em baixo relevo, marcando o ano em que o sonho de alguma família foi erguido.

Quando fecho os olhos e volto no tempo, lembro perfeitamente da época em que nosso grupo de jovens arquitetos se deparou com o desafio de restaurar o Mercado Municipal. Foi em mil novecentos e oitenta e sete. Aquele prédio não era apenas um aglomerado de tijolos, ferro e argamassa. Era o coração pulsante do comércio, das trocas, das fofocas, do cheiro de coentro misturado com o aroma do caju e da mangaba. Restaurar um espaço como aquele não é apenas aplicar uma nova camada de tinta ou trocar as telhas quebradas. Restaurar é um ato de profundo respeito. É pedir licença aos fantasmas bons que ali habitam para fortalecer as estruturas, permitindo que as próximas gerações também possam criar as suas próprias memórias naquele mesmo chão.

A arquitetura, no seu sentido mais puro, é o cenário da vida humana. Pense na casa onde você cresceu. Você provavelmente não se lembra da espessura das paredes ou de qual era a fundação do terreno. Você se lembra da luz que entrava pela janela da cozinha no fim da tarde. Lembra do piso frio onde deitava nos dias de calor intenso. Lembra da varanda onde sua avó costurava ou da cor da porta de entrada que você cruzava correndo depois da escola. É isso que nós fazemos quando desenhamos um projeto. Nós não criamos apenas abrigos para proteger da chuva e do sol. Nós criamos os palcos onde a vida vai acontecer.

Vejo muito essa ansiedade contemporânea por espaços puramente estéticos, que ficam lindos em fotografias, mas que não abraçam quem mora neles. Um ambiente precisa ter alma. Precisa ter um quadro torto que foi comprado em uma viagem inesquecível, uma poltrona gasta que abraça o corpo depois de um dia exaustivo, uma parede de tijolos que mostra as marcas do tempo. A imperfeição faz parte da beleza. É como a nossa própria pele, que ganha rugas e linhas de expressão que nada mais são do que os mapas de tudo o que já sorrimos e já choramos.

Aqui em Sergipe, nós temos uma luz natural que é um verdadeiro espetáculo. Nossos dias são claros, brilhantes. A arquitetura regional sempre soube brincar com isso, usando cobogós para deixar a brisa passar e criar desenhos de sombra no chão, usando telhas de barro para segurar o frescor, varandas largas para convidar o vizinho para uma prosa. Mesmo que hoje a gente projete para pessoas do mundo inteiro, através da tela do computador, essa bagagem nordestina, esse entendimento do clima, do acolhimento e da luz, vai impresso em cada traço que sai da minha mão.

Eu convido você, que me lê agora, a fazer um pequeno exercício amanhã. Quando sair para trabalhar ou para resolver qualquer coisa na rua, escolha um trajeto diferente. Passe por uma rua mais antiga do seu bairro. Esqueça o celular por cinco minutos. Olhe para as portas de madeira maciça, para os gradis de ferro trabalhado, para os azulejos que resistiram ao tempo. Pense nas mãos calejadas que ergueram aquelas paredes. Pense nas conversas que aquelas janelas já testemunharam. A nossa história está escrita na nossa arquitetura. E valorizar essa memória é a forma mais bonita de garantir que nós mesmos não seremos esquecidos no futuro. A cidade é a nossa casa maior, e cuidar dela, entender a sua alma, é um dever de todos nós.

Outros Artigos

Nenhum item encontrado.